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blogue do jardim das jacas - luís altério

- Eu é mais d'eus -

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blogue do jardim das jacas - luís altério

29
Fev20

...

[34].

A vida em Haworth era monótona com os persistentes uivos de ventos fustigantes. Era preciso uma alma indomável para viver o dia a dia fustigado por aqueles espirros dos deuses... Muitos aguentaram, de geração em geração. Um dia a família Bronte veio para Haworth, pois o Pai daria conta da igreja... E perto da casa onde vivia a família, o filho homem, Branwell, tinha por hábito frequentar a taberna “Touro Negro”. E entre canecas cheias e vazias, com ou sem láudano a promessa artística da família mostrava os seus prodígios tais como escrever com as duas mãos, pintar com rasgos de génio, ao mesmo tempo em que lavrava versos com as irmãs, quando calhava de regressar a casa a horas decentes. Mas a jornada penosa naquelas colinas varadas por ventos que açoitavam vidas, mais um amor frustrado de uma mulher casada, tudo isso regado a vícios, murchara paulatinamente o desalentado irmão Bronte, o que representou uma perda imensurável para as Artes. E assim, quando calhava, lá voltava ao “Touro Negro” e ao láudano. E quando finalmente a morte lhe veio bater à porta - diz a lenda - que o pai suspirara: - “O meu rapazinho brilhante”.

29
Fev20

...

[33].

- Perdemos o fio à meada com a sua ponta em nossas mãos, mas à deriva.

- Sim, mas qualquer dia eu procuro a origem do périplo desse fio até chegar à outra ponta da meada. Mas percebo que perdemos... Mas o que se impõe, agora, é como começar a busca? Tem sido uma viagem em que só nos contentamos com o formigueiro de heresias e deixamos para trás o nascedouro de tudo... Perdendo o rasto que nos orientaria para o retorno e - quem sabe - iniciar outro périplo... Mas procurar onde? Onde começar?... Talvez em vasculhar as ‘gavetas intemporais’ para encontrar os velhos pergaminhos das ‘origens do périplo’ e resgatarmos a outra ponta... Quem base?

- É. Quem sabe...

29
Fev20

...

[32].

- Bom dia, amor.

- Hum!... Epa!... Quantas vezes ao dormir acordo de espantos mil durante o sono... Bom dia, querida.

- Oh, e eu?... E quando finalmente desperto deste estado latente e nada lembro senão o espanto sugerido?... Céus, estou sonolenta...

- Verdade, o espanto da vida... Vou ao trono e... Depois vou fazer o café. Fica mais um pouco na cama.

29
Fev20

...

[31].

- Bom dia.

- Bom dia, filho da mãe!

- Obrigado.

- Mas... Não te sentes ofendido?

- Então?... Por acaso deveria ser filho de outra coisa?

28
Fev20

...

[30].

Contos, Fragmentos e Poemas, será o título de um livrão que sonho realizar, um dia, juntando todos esses farrapos que nunca escapam da latência do Tempo e Espaço da escrita, como Escrita de Fronteiras... O escritor perpetua com a sua solidão a vertigem para as teclas de um portátil velho e maçante, dirimindo a sua “pena” obediente, e descrevendo as cordas de várias dimensões entre o hoje e o ontem, e assim assegurando o sentido de pertença... Todos esses farrapos como a teoria das cordas: Os blocos fundamentais (contos, fragmentes e poemas) objetos extensos unidimensionais do corpo da Escrita de Fronteiras.

28
Fev20

...

[29].

- E quando os dentes afiados da actualidade mordem, cravando diligentemente a pele macia do Acontecido e passam a peste do passado para o futuro?...

28
Fev20

...

[28].

- Nasceste em França?

- Sim.

- Mas tu não falas nada de franciú!

- Nada! Nicles! Saí de lá catraio. Fiquei com os meus avós paternos na aldeia, a ser bombardeado pelo português, depois os meus pais vieram definitivamente para a aldeia e fomos viver para a nossa casa com o café-prisão... Até hoje, nicles de franciú!

- Sei... Bom, o Cortázar nasceu na Bélgica, no meio de bombardeamentos... Escreveu ele que o “Meu nascimento foi sumamente bélico.” E já adulto, foi viver para Paris. Viver a literatura! Foi o melhor que fez.

- É. Cada um... Eu fui viver bem longe... Em frente a um jardim das jaqueiras no meio do Sertão da Ressaca.

28
Fev20

...

[27].

- Ano morto ano posto! Essa é a verdade dos factos, amigo! Mas...

- E a outra verdade é: pensamento morto pensamento posto... Recarregar as baterias de ‘chumbo’ da tola! Até o Nietzsche tinha mudanças de fases. É assim a vida... Já agora, escreveu o filósofo – imortalizando as suas memórias - num desses momentos de transição morto-posto: “O que se decidiu em meu interior naquela época não foi um rompimento com Wagner – [...]- quão inútil e arbitrariamente toda a minha existência de filólogo destoava da minha verdadeira tarefa. Eu me envergonhei por essa falsa humildade.”

- Vai-se aprendendo. O problema aqui é que o morto 2019 passou a cadáver 2020.

- Pois... O país ainda não carregou a bateria de ‘chumbo’ da memória... Vamos perdendo a Luz aos poucos.

27
Fev20

...

[26].

Um dia estava tão desesperado a ponto de espatifar o portátil e lança-lo para o jardim das jaqueiras (para estrume) que contive-me, por milagre, e teclei no dito ‘quase-estrume’: Quando eu poetar-me verei versejar os vícios meus em trovas que já não caibam em rimas. E isso soar-me-á num alarme!...Mas só tenho que aceitar! Respirar fundo e... E então, mais empenhado serei (não sei como, mas depois lá se verá) a saber-me livre das normas, e poderei carmear num impulso literário só meu e sobejar – quem sabe? - em vanguardas bem-vindas mesmo que talhadas ao fracasso público.

 

27
Fev20

...

[25].

Quem compreendeu, de todo, este “Une Saison en Enfer”?... Eu leio e releio, e sempre tiro o chapéu ao autor (um fedelho de Ardenas), sem, no entanto, o compreender definitivamente! E diz a lenda que ele – o poeta altivo -, perante a incompreensão por parte da mãe ao se deparar com esse  “Enfer”, lhe teria dito: «Eu quis dizer o que lá diz, literalmente e em todos os sentidos». Ora, a grande poesia é isso: um fazer em todos os sentidos, mesmo os que não conhecemos e que só os descobriremos com releituras.... Uma vida para ler o “enfer”, portanto.

27
Fev20

...

[24].

- Se eu mordo o belo canto enquanto ouço-me a desafinar, sou mais que um cão que ladra?

- És mais que um desatinado que não ladra.

- Só isso?

- Só.

27
Fev20

...

[23].

- Então rapaz! São horas de chegar? ... O jogo já começou e...
- Estou cansado e demorei-me. Ainda é longe se for a pé.... Deixa-me tirar esses calcantes que me fodem o juízo! Onde está o sapatal?
- Sapatal?
- Sapateira, porra!

27
Fev20

...

[22].

- Os processos inconscientes não podem ser examinados sem esforço.

- Verdade! E eu que bebo cachaça avanço no esforço possível para entender o porquê de mergulhar no pinguço.

- Bebendo para entender porque se bebe?

- Sim...

- Mas faltarão provas. Provas de outros... Ó ‘pé d’água’, até parece que ainda vives no tempo de Freud!

27
Fev20

...

[21].

- Acho que a nossa jornada começou a perder o rumo no momento em que perdemos o significado primeiro das palavras.

- Como assim? Queres deixar-me mais confuso? ... E ouve lá, estás a culpar os poetas?

- Se queremos vencer esse aneurisma que nos faz perder a elasticidade dos nossos vasos comunicantes, sim, temos que reequacionar tudo o que sabemos, antes que tudo se rompa e....

- Queres ver que agora a Arte é a culpada de tudo?

- Não, não é bem assim... Dar sentido às alterações de significado não tem mal... Repara, eu uso as metáforas... Bom, o importante é termos assente que tudo se move sem jamais perder o rumo... Falando de céu e da chuva, dizemos: Zeus faz cair a chuva.... Entendes?

- Não, não de todo... Ah, sim... quer dizer, vou entendendo mais ou menos...

27
Fev20

...

[20].

- O escritor é baseado em proposições!... E nas quais quase sempre não tem consciência, salvo seja, a força da língua! Precisamente a língua em que acredita!

- Certo, deixa só escrever aqui. Para lembrar... E queres acrescentar mais alguma coisa?

- E o que és, como escritor, escapar-te-á perpetuamente, certo?

- Certo, certo... E mais alguma coisa ou...

- É isso, rapaz: Escrever é tudo! Escrever o assunto que queres provar, é tudo.

27
Fev20

...

[19].

- Ouvi com atenção.
- Sim, Mestre.
- Se puderdes, atentai o parlatório que chamusca por ai, pois que dançamos feitas baratas tontas estorricadas entre a ciência que discorre para apagar e o escândalo que faz guinchar as labaredas. Rogo, pois, pelos deuses que possais ter forças para tão nobre tarefa de dar uma ordem a isto tudo para que depois, finalmente, possamos viver livres da escravocracia ardente sem rosto.
- Sim, mas como Mestre?
- Tentando, filho... Tentando.

26
Fev20

...

[18].

O que me supõe mover o inamovível é não movê-lo de ânimo leve. E isso assente na cachimónia, depois de haver tido coragem, finalmente, de sentar as nalgas à frente da maquineta, e recomeçar a errância das infantilidades, escrevendo... Convencido então, eu, que moverei, vai-se lá entender tamanha infantilidade, o inamovível, enfim.

26
Fev20

...

[17].

Isso dos gregos ociosos debruçarem-se sobre os conflitos entre Deuses no Olimpo para imiscuírem-se nos assuntos humanos elaborando meticulosas urdiduras só foi possível pela folgança das necessidades materiais, coisa aliás que os sacerdotes egípcios ao tempo lhes gabavam e rematavam:

- “ Vós, gregos, sois sempre crianças. ”

25
Fev20

...

[16].

- Vamos por partes. Qual era a prisão?

- Prisão Pollsmoor, na África do Sul. E dou graças a deus ter saído. Agora só quero paz e sossego num canto. Quero começar tudo de novo e fazer com cuidado, sem atropelos. Daí escolher este país.

- O que te salvou da prisão foi seres testemunha? Como?

- Sim, testemunha de cela. Eles punham três detentos em cada cela para garantir uma testemunha, caso um quisesse aniquilar o outro... Mas um dia fiquei doente e tiraram-me da cela e no dia seguinte os outros dois se apunhalaram um ao outro sem testemunha. Sobreviveu apenas um.

- No fundo, um de vocês é o segurança do outro e vice-versa.

- Quando voltei puseram outro na cela para completar e descobri por mero acaso que queriam aniquilar-me. Um deles tinha este propósito.  Mas adiantei-me e ... Antecipei-me ao Mal com o Mal, digamos assim. Limpei o sarampo aos dois, antes que fosse tarde demais... Mas agora quero deixar-me disto. São muitas mortes para lidar.

- Mas... Mas estás solto! Como é que conseguiste?.... Deixa, deixa para lá!. Podes ser importante para nós! Aqui no bairro temos umas brigas.... A nossa facção está com dificuldades e...

- Deixei-me disto, lamento...

- Ok, ok.... Sei que passaste por muito. Mas vamos aquele café, vamos falar com calma... Depois de um café quente as ideias afloram... Pagamos-te bem...

- Lamento. Abandonei isso... Mas um café quente digo que sim!

- É assim mesmo! Vamos...

25
Fev20

...

[15]

O mar. O “ir e voltar”... O mar que está farto de goelar as insignificâncias que nos metamorfoseiam em resinas sintéticas ao ponto de gritar por socorro aos nossos ouvidos postiços e moucos...

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