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blogue do jardim das jacas - luís altério

- Eu é mais d'eus -

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blogue do jardim das jacas - luís altério

27
Mar20

...

[91].

- Prometes que não choras?

- Prometo.

- Então sente isto: com que intensidade aquele talo de rosa desabrochada pode negar-se a nós?... Estás a chorar?

- Simmm... É que é tão verdade... Desculpa.

- Mas tinhas prometido que...

- Mas é de alegria!

27
Mar20

...

[90].

O que estava escrito – perecível, ainda assim – era a possível anatomia de uma mensagem dita não escrita, mas visualmente escrita.

27
Mar20

...

[89].

- Obrigado pela boleia.

- Carona.

- Isso... Que vais fazer agora? Eu ainda não almocei... Os feijões esperam-me.

- Para que de uma só vez, e como de um só relance, da manhã fria já finda para início de tarde a querer aquecer, faça da indecisão prenha de mudanças uma escolha a que tudo fique na mesma e sem espantos mil...

- Foda-se!... Os feijões esperam-me! Valeu!

27
Mar20

...

[88].

- Quando o meu pai proíbe-me de ver a Vanessa Del Rio com as suas performances só penso em fugir de casa.

- Meu rapaz, primeiro para de vergastar o teu coitado ai debaixo das cuecas e... Olha, na vida o fim em si deve ser a Liberdade. A mesma que Espinoza ao tempo não recuara ao pensar no sumo perigo... O destino é teu, só teu. E deixa de ir à casa de banho para efeitos extracurriculares, senão ficas com anemia. Enfrenta o mundo!

- Mas como?

- Arranja uma gaja! Ora!

26
Mar20

...

Já passava de uns sete minutos das dez e vinte da noite, hora de sairmos, quando sentimos o semi-leito arrancar para Salvador, e logo começamos a acomodar-nos sem antes baixar o encosto e cobrir o corpo com o cobertor (a carreira disponibiliza o cobertor embrulhado num plástico asseado), e os dois velhos (na verdade, um na meia idade e o outro mais velho) atrás de mim que, presumo, sejam médicos, também acomodados e cobertos, falavam animadamente. As luzes se apagaram e o breu tomou conta de nós. Ao som das suas vozes fui sendo embalado, e antes de adormecer finalmente, ainda me ficou na memória o último trecho da conversa:

- ... que contribuiu para a diminuição da população.

- Mas como assim? Por que era no interior?

- Sim. Era transmitido de mãe para filhos, até! E acontecia na maior parte dos casos e porque era nos confins do Sertão, quem recorresse a abortos. Abortos clandestinos!

- Por quê?

- Decorrente da Lues Venerea.

- Entendi...

- E claro era visto como uma doença vergonhosa! Uma questão de moralidade,s abes como são as coisas aqui no Sertão! Havia quem atribuísse até um julgamento moral com o sexo fora dos limites morais! Essas crendices do Sertão! E lembras-te com certeza do meu pai que combatia contra esses charlatões que vendiam o depurativo do sangue “Elixir de Nogueira”. Lembras-te?

- Sim, lembro!  E o teu pai foi um grande homem, e grande médico! Foram homens como o teu pai que fui para médico! E é verdade que... (e adormeci até Salvador...).

15
Mar20

...

[86].

No meu último turno da noite, no condomínio Alameda das Flores, quando a Lidinalva Kleberson e a sua filha Francielle Rhannna do prédio L apartamento três esquerdo buscavam o gato perdido pelos cantos do condomínio eu apareci de rompante, e elas direccionaram as lanternas nos meus olhos, um pouco assustadas.

- Tenho o gato... Estava na ala oeste -  Balbuciei.

- Oh!!!... Obrigada – disseram as duas ao mesmo tempo.

- Não...Devem agradecer ao jovem que pulou o muro algures na ala oeste – para assaltar quase de certeza – mas reorganizou as prioridades e foi entregar na portaria o gato perdido precisamente quando os meus colegas abriram o portão para um carro de um vizinho entrar e em seguida apanhado pela luz do carro, fugiu com todas as pernas que tinha numa gáspea que nem sei dizer, antes que déssemos conta do que quer que fosse. E então, como passava por ali perto, na minha ronda, peguei no gato que o deixara no chão e...

- Mas então não sabe quem foi? Não o reconheceu – Perguntou a mãe.

- Não... Foi tudo tão rápido- Reanimei-me.

Agradeceram-me mais uma vez, fomos juntos até ao prédio L, deixei-as na entrada. Voltei ao meu posto, abri o meu diário e acrescentei esse pedaço do dia e meditei a condição humana e as voltas que as coisas dão, ou que podem dar. Satisfeito, fechei o diário, dei mais uma olhadela em redor da entrada, sosseguei, estendi as pernas na mesa, revi as filmagens do jovem a pular o muro e finalmente liguei a TV e relaxei, e foi quando chegaram os meus colegas das suas rondas.

14
Mar20

...

[85].

- O que podemos afirmar na errância dos fragmentos? Mesmo que ali ocorra um achado? Acolá um esforço em si, belo e escorreito?... Hein? E que isso tudo passará pelo crivo de quem começa o dia com o seu temperamento instável? E que na maior parte dos casos já um nado-morto, a cumprir o contrato social? ... O que podemos afirmar?

– Nada, rapaz! Nada! Afirmar o quê? ... Bah! Mas a culpa é tua, sempre neste zunzum de notinhas ...

14
Mar20

...

[84].

A impostura, principalmente na Arte, é como a diorama dos quadros de paisagens. É a vida tal como ela é, aldrabadamente, como se diria, mas é do que somos feitos... Ou, parafraseando o pintor Constable: "[...] A arte agrada por recordar não por enganar." E assim fazemos pela vida, quer queiramos quer não...

14
Mar20

...

[83].

Os fragmentos não são espelhos, mas talvez como os espelhos fazem, traduzem a magia da transformação breve de qualquer coisa de maravilhoso, desde que sejam lidos.

14
Mar20

...

[82].

- Escrevo tantos fragmentos... Mas fica sempre esse amargor.

- Que amargor?... Olha, o Ortega y Gasset dizia uma coisa interessante sobre isso... Ou melhor, escrevia ele: “Ser artista é não levar a sério o homem tão sério que somos quando não somos artistas”.

- Grande ajuda! ... E que isto tem que ver com o meu amargor? Com as dúvidas?

- Não penses tanto... Olha, sem querer tens mais um conto. Um diálogo. Vais publicar?

- Não sei... Mas pelos vistos sim.

14
Mar20

...

[81].

Uma das empreitadas míticas, daquelas que alvoraram revoluções por este mundo fora - revoluções positivas para o Ocidente e negativas para os conquistados - foi a cosmografia para o Levante dos navegadores .... Até o Poeta Pierre de Ronsard, ao tempo de agrimensor infatigável dos Levantes a descobrir, se lembrou de escrever:

“Pois nada é excelente no mundo se ele não for redondo. ”

E no entanto, quantos há por estes Levantes todos dos nossos dias, que afocinham que o mundo é Plano? Hein? Onde metem tanta asneira naquelas fusões mentais e fundir a planificação do mundo?

12
Mar20

...

[80].

- Não sei como te dizer... É tão complicado.

- Se existe mil maneiras de afirmar a mesma coisa, qual o propósito? Só para me atormentar?

- Pois, pois... Daí a minha hesitação.

- Por isso mesmo não digas mais nada... Aliás, já me deste a resposta logo no início. Embora não seja do meu agrado.

11
Mar20

...

[79].

- Ela morreu. Mas a um tempo ido, ela não era assim. A cada vez que o destina lhe pregava um susto – diziam, quem vivia com ela, vizinhos – que, embora ficasse abalada pelos soluços que a sacudiam, num repente arrebitava-se, inspirava ar, e arregaçava as mangas, digamos assim... Depois, bom, depois ela perdeu a fé e...

- Quando é a enterrar?

- ... como?... Não, não! Morreu-lhe a alma boa, só!

11
Mar20

...

[78].

Os olhos teus alvejam os olhos meus, portanto. Olhos meus que refletem o alvorecer dos olhos teus e que por sua vez lobrigam inquirir os olhos meus. Portanto, os olhos meus alvejam os olhos teus.

 

11
Mar20

...

[77].

Alma navegante, até onde as minhas pernas possam apear-se e fazer de um universo de devaneios ondulatórios uma criação na sua totalidade, ainda que resulte sempre em marés de sul de nenhum norte desensolarado... Mas é esta a minha alma navegante.

 

11
Mar20

...

[76].

- Se considerarmos apenas os heróis-de-sofá, Luís, a afirmação segundo a qual a sociologia dos malandros é o diagnóstico da modernidade não exigiria grandes explicações: É-se frouxo e pronto! A vidinha continua que ninguém está aqui para reclamar das perdas... Pelo menos por enquanto.
- Até as lideranças democráticas estão estendidas nos sofás!
- Essas então, Luís, roncam tanto que não deixam dormir ninguém em Paz!

10
Mar20

...

[75].

Toda a gente gostava de ver Babe Ruth exagerar no seu tempo de Lenda... E violar a Lei Seca. E sempre se saia bem destas tarefas politicamente incorretas, suponho eu por ser dotado de natureza excepcional e, claro, tocado pela sorte dos audazes... Bukowski também era desta estirpe! E Robert Mitchum, o actor da linha dos Duros... E outros, haverá com certeza, mas que todos estão em pequeno grupo. Voltando às proibições e à Lei Seca, estas sempre tinham os seus paradoxos... E nem de propósito, um tal John Kobler escrevera num livro, “Ardent spirits”, a seguinte bulha quase fatal com Al Capone em plena Lei Seca: “Eu tive um contato rápido e íntimo com Al Capone em 1926.  Ele urinou sem querer nos meus sapatos. Aconteceu no banheiro masculino do Hotel Croydon. Ele estava bêbado, eu estava bêbado. Ele não sabia quem eu era, mas eu o conhecia. Eu tinha a reputação de ser o bandido mais vicioso de Chicago, e Deus sabe que isso é verdade. Estávamos prestes a resolver aquilo no braço quando Al pensou melhor a respeito. Não chegou a pedir desculpas, mas admitiu que tinha cometido um erro social. Decidi deixar passar. Tomamos uma rodada, e depois disso, sempre que ele me via na cidade, dizia: ‘Olá, garoto, como vão as coisas?’”

10
Mar20

...

[74]. [variante de um conto de Rubem Fonseca]

- Pois, já que é para andarmos neste conto, que seja.

- Certo! Atira tu primeiro. Amanhã tenho um dia terrível na Companhia.

- Força, atira tu! ... Engraçado, eu também estarei muito ocupado! Não me espera vida fácil amanhã!

-Ele era teu amigo, portanto despacha lá isso... É só um tiro de misericórdia.

- E teu, ora! Olha para ele, deitado no chão, a mão de semear para o teu gatilho!

- Esse é o problema do autor, não se decide.

- Pois! Ó Altério decide lá!

- E começou logo a escrever mal, pelo título. Não seria melhor homenagem ao Fonseca, chamar-lhe a essa espécie de conto, o “Passeio Noturno-Parte III”?

- Pois era.... Despacha lá isto! Atira!

- Bom, descarrega tu as balas, senão este conto não vai a lado nenhum! Acabe-se, e pronto!

- Todas as balas? ... Aqui vai, desvia-te... (uma voz vinda do chão:  Não! Não! Não!...)

- Espera!... Temos que matar o nosso amigo por atropelamento. Lembras-te do tal conto do Fonseca?

- Pois, é verdade!... Esse Altério, valha-me deus! Mete-se onde não é chamado!

- Vamos lá... Traz o teu carro. Que eu arrasto a vítima para a rua.

- Mas é o teu que está lá fora! Deste-me boleia! O autor não to lembrou?... Dá-me a chave, vá.

- Esse autor é um confuso... Vou eu, vá... E trás a vítima.

- Ok... E é carona, qual boleia qual carapuça!... Emenda ò Luís!...

- Bom, deixa o rapaz escrever como ele quer, senão...

(O carro avança em direção à vítima, e uma voz no chão: - Não! Não! Não!...)

- Feito! Vamos, entra para o carro! Que amanhã será uma porra de um dia!

- Acho que o autor lá alinhou, hein?

10
Mar20

...

[73].

Gosto imenso da escrita dos antigamentes... E da sua sonoridade. Vou tentar escrever à maneira dos idos de dezanove, e imaginar-me brasileiro e jornalista do “Correio Paulistano” e... E escolher uma data. A notícia, então, ocorreu por exemplo a 23 de setembro de 1887:

 

O assalto dera-se ante-hontem de manham ainda o sol a decidir-se forte, por dous destemidos e parece que a vítima fora um home que vinha de catar cipó, dando-lhe (os dous cafajestes) valente sova e ficado sem o tantinho de cipó que tanto lhe custara apanhar.

10
Mar20

...

[72].

Faltavam quatro dias (ou três, não estou certo) para o aniversário dela. Estavam as estrelas a conjugarem com o fito de lhe completar os seus dezassete anos e ela já nervosa com a festa.

- Dezessete.

- Cala a matraca! Deixa-me escrever em paz! Dezassete! Ok?... Continuemos. Estava ela então nervosa, mas a ler no seu quarto o livro “Contos Completos” de Lydia Davis e terminada de ler o conto “Dinheiro”, tivera uma epifania!... Abrira o computador, teclara para a Internet e abrira o seu correio electrónico...

- “Correio electrónico”!.. Todo chique tu, hein?

- Deixa concluir! Posso?... Bom. E finalmente escrevera no seu e-mail(Para um monte de gente: Tios, avó na aldeia, primos (daqui e de outras cidades), amigos da escola, amigos da família e o irmão e sua mulher): “Meus queridos, não quero mais presentes! Nos meus dezassete anos só quero dinheiro! Se quiserem dar-me prenda que seja em forma de notinha com bom número, e ponham-na num envelope. Se não quiserem enfiar a nota no envelope, dão assim mesmo na minha mão no dia da festa, a nota despida. Beijinhos e cá vos espero na festa.”

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