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blogue do jardim das jacas - luís altério

- Eu é mais d'eus -

- Eu é mais d'eus -

blogue do jardim das jacas - luís altério

28
Abr20

...

[137].

- O nosso problema sempre foi querer rebelarmo-nos por ressentimento.

- Óptimo! É assim que seguimos em frente, acho.

- Quê nada! Nestas lutas acabamos sempre por - e a História não me deixa mentir - escravizarmo-nos pelo ressentimento! É como quem diz: lá vamos nós (os ressentidos) a caminho do inexorável primado do estomagado.

- Estoma... quê?

- Estomagado... deixa pra lá.

27
Abr20

...

[136].

- Essa agressividade miliciana-terraplanista do Planalto deixa-nos um vazio ao qual não estamos preparados... Tanto, que nem reagimos com a pandemia à porta... O que espanta... Sim, espanta, digo bem! O que espanta é essa singularidade ocidental. Como escreveu Michel de Certeau, “as novas formas não expulsaram as antigas. O que existe é o empilhamento estratificado”. É como se a História robustecesse com aquilo que exclui... É o discurso da separação ao longo da nossa já longa jornada. Uma Escrita de História Ocidental sem o Outro e com a Igreja sempre por perto. A violência no Povo alicerçada pela lavra de um discurso de ausência do Outro... Mas agora nesta altura do campeonato desastroso já sem discurso algum para dar lugar ao Caos liderado por ASSASSINOS com lugar no PODER para transformar Brasil num grande condomínio fechado dominado pela Milícia Suprema...

26
Abr20

...

[135].

- Olha para o espelho. O que vês?

- Um tipo que podia ficar mais ‘limpo’ sem a barba rija de três dias e.... E que vais para velho...

- Ok! Amanhã vou escanhoar as faces... E é o que estás a pensar: Passar a lâmina segunda vez e em sentido contrário ao dos pêlos... Agora a sério, olha bem e o que vês?

- Alguém um pouco desencarrilhado.

- Sério?

- Sério!

- Bah, esquece!

- Estás a fugir à questão, como sempre. Submeter-se ao exame é pronunciar-se na sua própria sentença. É uma escolha!

- Escolha? Só te perguntei o que vias no espelho! Bom, depois da barba amanhã cedinho, voltas a olhar para o espelho e dirás alguma coisa... Porra, não se pode contar contigo para nada!

26
Abr20

...

[134].
- Tu que gostas daquele quadro de Gustave Courbet (e logo tu, com essa mente depravada), sabes que, segundo o jornal, a vulva eriçada já tem dona?
- Como?
- Descobriu-se uma afirmação atribuída a Alexandre Dumas (o filhote) e que diz o seguinte: “Não se pinta o mais delicado e sonoro interior de mademoiselle Queniault(sic) da Ópera.”
- Sério?
- Sério. A modelo é essa mademoiselle Constance Quéniaux, à época bailarina e filantropa.

25
Abr20

...

[133].
A propósito de tudo e de nada e de alguma coisa: A quintessência de um economista-funcional-sem-alma é solidificar o Capital Internacional! E sendo um mero utilitário (mas um sem-alma descartável e que não o sabe, ou se sabe mas só tem coragem para encetar a fuga para a frente) só ajuda a consolidar, então, o Capital com reiterada reclamação exponencial do Lucro. Em contrapartida, o sem-alma olha-se ao espelho, cansado, com reiterada pobreza exponencial reflectida numa imagem de rugas do tipo ‘tarde demais’. Espremida toda a quintessência de um sem-alma, então, e no fim das contas de Todas as Contas contabilizadas na sua tabela, nada mais é que as rugas do tipo ‘tarde demais’.

25
Abr20

...

[132].

- ... nada disso, rapaz! Eu, para te falar a mentira, é o seguinte: o Homem é ser-se para si a pensar o mundo, logo, é uma obrigação que todos cumprem.

- Então és um filósofo, meu reguila do caraças!

- Nada disso, rapaz! Eu, para te falar a verdade, é o seguinte: sou só um ‘engenhoco’ frustrado, que, por acaso escreve umas merdas, logo, é uma obrigação que eu cumpro.

25
Abr20

...

[131].

- Um escritor que lavre frases que nos explicam a nossa fraqueza já demonstra o seu empenho na boa lavoura das suas frases bem rasgadas para plantar verbos de boa raiz e substantivos de talos rijos e na estação certa esperar os frutos maduros.

- E sofrendo em algum lugar de si....

- É. Talvez isso... A dor! ... E os que infligem a dor? Como se descreve a satisfação do carrasco, qual tigre empenhado, ansiando por sangue? E sabes, acho que um carrasco empenhado já está naquele patamar onde o domínio das emoções já se afundou lá no fundo, mas como descrever?

- O Dostoiévski era bom a tratar esses estados de alma.

- O maior! Mas agora trata-se de mim, salvaguardadas as devidas distâncias... Como descrever de forma original esse prazer de aplicar dor ao Outro?

23
Abr20

...

[130].

- Já fiz o serviço.

- Então está tudo certo? Ninguém viu?

- Tudo certo!

- Onde está o corpo?

- No lugar que falou. Limpinho.... Não se preocupe.

- Certo.... Tome lá...

- Obrigado.

- Você é bom no que faz! Como se chama, mesmo?

- Convém ficarmos por aqui. Qualquer coisa telefone para esse número aqui. Tome... Não leve a mal, cada trabalho finalizado outro número... É que sou cuidadoso. Vivo obcecado pelas dúvidas, pontas soltas, entende? E trabalho sozinho.

- Entendo. A presença orgulhosa da dúvida.

- Como? O que está a insinuar?

- Nada! Calma! A presença orgulhosa da dúvida que faz da hesitação um património inestimável para o paradoxo da margem de erro.

- Valeu! Fala esquisito, mas desde que a gente se entenda... Quando quiser outro serviço é só ligar para esse número.

23
Abr20

...

[129].

Em verdade vos digo, gritava com solenidade o coronel no cimo do coreto da cidade sob a inclemência do sol de sertão aos seus eleitores, não vos deixeis enganar pelos nossos inimigos, eu fui e sou caluniado por estes, mas como o Péricles, vós sabeis que sob o meu comando a democracia funciona! Eu, tal como o ateniense, controlo bem as massas, mas preservo-vos a democracia para poderdes usufruir a cidadania! E se é certo que não me deixo conduzir pela maioria, mais certo sabeis que vos conduzo com razão e mérito! Podeis até acusar-me mão de ferro, mas sabeis que vos amo! Já o Tucídides escrevera que... Deixa cá ver.… A folha... Ah está aqui, abrir aspas: Em teoria, Atenas, sob Péricles, era uma democracia; de fato, porém, era um regime comandado pelo seu cidadão mais proeminente. Fechar aspas. Portanto, já em Atenas era assim, porque não pode ser também assim na minha cidade? Eu sou o vosso proeminente Péricles!...

23
Abr20

...

[128].
Com o chinelo veludo da noite ele batia na miúda entanguida com empenho de pai funcional. De berros descarnados, mas agudos, ela ostentava um punhado de desespero que fosse – suponhamos nós, pois essas dores nunca saberemos - de susto aos rumores de fim da tarde onde o sol caía para o poente, fazendo vassalagem ao instante de tareia paternal porque sim mas também um bulir teimoso enquanto os seus olhos marejados de desespero podiam ver pela janela o renque de meia dúzia de árvores da rua sem iluminação e que seus ramos fossem açoitados pelo vento e a passarada feliz nas suas cantorias... E o reinado do chinelo veludo continuasse com a vassalagem de choros descarnados até o sol desaparecer, assim como se ele fosse como os homens misóginos de Sam Peckinpah a haverem-se com as mulheres do oeste brutal.

22
Abr20

...

[126].

- Quando se diz tudo durante a luz (em plena luz, portanto) e ao esmorecer da sua intensidade logo após cercear o dia a mostrar cansaço e depois um manto escuro a iluminar o ser em si ouvidor e terminar voando nas expectativas do dia seguinte.

- És um poeta dos diálogos!... No fundo no fundo, é como se dizia antigamente, o que é mais importante: o vinho pronto a beber ou a pipa de um velho carvalho?

- Tu também dás uma bela goela de poesia, quando espicaçado pelas musas do rio Rabaçal. Bom, em tempo de crise como esta, se calhar o mais importante é saber “olhar” com mais atenção a pipa de um velho carvalho em detrimento do bom vinho pronto a beber.

- Palavras sábias!

21
Abr20

...

[125].

- Um momento de identidade é ouvires outro pessimista afirmar mais ou menos isso: “... e quando o grande Filósofo, a propósito do caso Wagner, assentou que a modernidade é uma espécie de necessidade contemporânea e sedutora de incitamento à brutalidade, ao artificialismo e à idiotia, que percebes que o nosso rumo está desencaminhado.”

- És pessimista?

- A nossa modernidade está no bom caminho?

- Não... Quer dizer... Sei lá.

- Então é esta brutalidade, este artificialismo e esta idiotia que nos define. Eu não deslumbro nada além do pessimismo.

- Porra, tenho pena de ti...

- Não tenhas, não tenhas... Eu estou no bom caminho, acredita!

21
Abr20

...

[124].

- Talvez o maior paradoxo da História-escrita seja lermos no lugar de leitores-mortos em vez do lugar de leitores-vivos.

 

- Mas nós nem sabemos LER, rapaz! Olha o que resultou de tantas leituras, teses, revoluções... Nem se trata de sabermos em que ‘lugar’ estamos quando estamos na Leitura... Vivemos errados desde o começo do Contrato Social.

21
Abr20

...

[123].

- As jacas já estão quase todas apanhadas. O vosso jardim é muito concorrido e...

- Ouves o pássaro?

- ... não.

- Ouve...

- Sim, agora estou a ouvir.

- Um piu-piu lá no ninho, confirma pela enésima vez o diário de um pássaro que, longe de copiar o modelo natural, cria o ideal pelas melodias intemporais, e imagina na sua cabecinha uma composição lendária com o seu chilrear que ressoe pelo universo do Jardim das Jaqueiras... Como se dissesse: também sou o que sou porque todos somos o que somos.

- Porra... Nem sei o que estava a falar.

- Escuta, escuta...

20
Abr20

...

[122].

O esforço e a perícia na montagem de uma cena com um casal de velhos num banco de um jardim, a um tempo outro:

O velho: - Tens o comprimido para tomar, amor.

A velha: - Sei... Mas esta água do cantil está gelada.

O velho: - Sim, este frio veio para ficar. Passa-me o cantil, tenho a garganta seca e...

A velha: - Toma, só tem um poucochinho de água.

O velho: - Então guarda a garrafa... Daqui a duas horas tomas o outro e...

A velha: - Obrigada, querido... Sabes se o Alberto telefona?

O Velho: - Este é um filho ingrato! Só nos temos a nós, não te iludas!

A velha: - Onde erramos, hein?

O velho: - Em tudo, talvez...

A velha: - Não! Não!... Nós não nos erramos, estamos juntos para o provar.

20
Abr20

...

[121].

- Camus tinha paletes de razão quando escreveu no seu Grande Livro o que a seguir reza: “ Os mártires, caro amigo, têm que escolher entre serem esquecidos, escarnecidos ou utilizados. Quanto a ser compreendidos, isso nunca”.

- Também li... E, já agora, tinha resmas de lucidez para se descobrir condenado, mas de peito firme, ao ostracismo pelos seus companheiros pseudo-esquerdistas como Sartre, entretanto adormecidos no berço ideológico ou entorpecidos pela alienação da causa viciante sem jamais sofrerem a Queda... Só quem sofre uma Queda é que se ergue inteiro! O resto da Esquerda-pobre estava subjugado sem queda para a lucidez pelo julgamento contemporâneo para ficar bem na “foto da Esquerda” mofada.

- Concordo! Ser de Esquerda é confrontar os partidos de esquerdinha que favorecem os vícios do Poder!

- Albert Camus, sempre!

- Sempre... Até lembra o 25 de Abril.

19
Abr20

...

[120].

- O meu alcance é que estou cheio, e posso dispor de tudo. Ou quase, vá! Até comprar a nossa velha rua!

-Isso! Dispor de excessos, mas nunca usufruir dos mesmos por falta de tempo.

- Mas tenho posse! ... E tu? Pobreta que vive de migalhas, como sempre!

- Mas vivo...

- De quê?

- De viver a vida, vivendo...

- Sabes, se quiser, ainda hoje vou a Las Vegas! Ou a qualquer parte do mundo!

- Então vai! Boa viagem, que eu vou jogar o chincalhão com os nossos amigos de infância. Ainda te lembras deles?

- Esquece! Vens comigo?

- O quê? Nem penses!

- E mando acabar a tua casa, sei que falta revesti-la...

- És um filho da puta de um escroto que só visto!

- Anda lá! ... Deixa-te de merdas! Tem gajas boas em Las Vegas, prometo!

- Mas nem sei falar inglês.

- Não importa! Vens?

- Não!

- Olha, sou capaz de te meter numa das minhas empresas, quem sabe, comandar até!

- E venho a tempo, no domingo? Temos o campeonato do chincalhão no bairro!

- Atempadamente, amigo. Vamos?

- Hummm... Vamos.

19
Abr20

...

- O que eu faço mesmo é ser inteiramente prenhe! Eu sou mais d’eus.
- Deus?
- De e...u...s. D’eus, abreviando.
- Eu, eu .... Eu, é mais ao calhas, conforme as fintas e tal, num acto escorreito conforme por onde as premissas tamborilarem...
- Se calhar vai tudo dar ao mesmo: Eu é mais d’eus!

18
Abr20

...

[118].

Conheci um desempregado bem singular (vim a saber mais tarde tratar-se de um contínuo de uma escola do interior que, por razões que me escapam, perdera o emprego) que afirmava nunca atravessar a ponte Luiz I à noite. E muito menos pela densa noite adentro e jamais pelo último quartel das trevas: “Nunca! De noite nunca! Depois das maratonas dos bares da Ribeira, divago pela noite dentro por intermináveis ruas, a destilar o álcool das entranhas para evitar de passar pela ponte e finalmente, já de madrugada com o sol a levantar-se, passo pela padaria que fica a caminho, compro dois ou três pãezinhos quentes e dirijo-me, então, para a Luiz I em direção à casa dos meus velhos e ferro-me na cama até à tardinha. Depois volto a levantar-me e...” Mas por que não à noite, homem? - Quis eu saber – Afinal, a ponte está bem iluminada e... “Pois!... És escritor segundo me informaram na tasca. Ó desgraçado! Para o que havias de dar!... Bom, mas eu gosto de ler! Leio umas coisas boas! O Camus! Já deves ter lido. A Queda! .... Não? Ó desgraçado de escritor! Tu, escritor sem teres lido Camus? .... Bem, não interessa! O argelino pôs na boca do seu Jean-Baptiste Clamence o que vai responder à tua pergunta: “Nunca passo, de noite, numa ponte. É a consequência de um voto. Suponha, no fim das contas, que alguém se atira à água. De duas uma, ou o senhor o segue, para o tirar, e, em tempo de invernia, expõe-se ao pior, ou o abandona à sua sorte, e os mergulhos retidos causam por vezes estranhas cãibras.”” Entendi, entendi... E depois o Douro é de um frio do caneco para nos armarmos em heróis! Certo, mas... Mas por que afirmas que jamais atravessas a ponte nas últimas horas da noite? “Pergunta a um suicida, ora! Por que escolhe sempre aquelas más horas? E depois o nosso dilema? Hein? Àquela hora passar pela ponte e um desses chatos saltarem e eu ficar preocupado! O tanas!... Se queres escrever coisas de jeito sobre suicídios lê e investiga! E a Sarah Kane? Tem a sua peça Psicose 4:48, já leste? ... Não? Estou fodido com este 'escritor'!”

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