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blogue do jardim das jacas - luís altério

- Eu é mais d'eus -

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blogue do jardim das jacas - luís altério

29
Mai20

...

[174].

“Não consigo respirar” ecoa para além da asfixia de George Floyd, escancarando a Vergonha de não termos ainda conseguido alçar para o Patamar Existencial seguinte... Parece, até, que descemos alguns degraus, ficando no patamar dos Eugenistas ou “o klan” ou, que é pior, no patamar do mandonismo de um Capital Financeiro que na sombra mantém a Supremacia da Elite-Branca e compra a burguesia para fazer o trabalho SUJO de asfixiar o Outro ou o DIFERENTE...

28
Mai20

...

[173].

Meu zap: Parece que esta tua resenha de uma vida é contra mim: baseia-se na convicção de que eu posso ser tudo, menos teu amigo?

 

Zap de um antigo amigo: Não. Baseia-se na convicção de que tu não podes ser tudo, e mais meu amigo.

28
Mai20

...

Meu zap: A beleza natural é igual ou superior à beleza produzida pelos humanos?

 

Zap do Professor: Pelo espírito aguçado do Homem a beleza natural é inferior... Na normalidade dos Homens, tudo é discutível.

 

Meu zap: Então é na assimilação das experiências de beleza dos outros que reside a Beleza. Mas, e a beleza natural como fica no meio disto tudo?

 

- Zap do Professor: Fica como ela é, Altiva e Soberana!.... Está-se a marimbar para o que aqui escreves, Luís.

27
Mai20

...

[170].

Zap de um amigo: Estamos a desenvolver um estado de negação e ninguém reage. Excepto alguns pouquíssimos cidadãos nas suas Live’s a alertarem o Povo, mas que é pouco... Eles só alcançam os seus nichos.

 

Meu zap: E numa terra plana onde reinam as milícias que controlam os líderes das Esquerdas e líderes de toda a Oposição, não temos curvas nem ângulos para barricarmo-nos das milícias e tentar abater a IGNORÂNCIA.... Resta-nos esses cidadãos entrincheirados nos seus écrans...

27
Mai20

...

[169].

Zap do Professor: Lenine anotou nos seus Cadernos Filosóficos: “Hegel analisa conceitos que habitualmente parecem mortos e mostra que há movimentos neles.”

 

Meu zap: Será o discernimento a alma do negócio dos conceitos?

 

Zap do Professor: Luís, atenta nisto: A categoria mais caprichosa do discernimento é a finitude.

 

Meu zap: É. O que sabemos, afinal? Pentelhos da Realidade monstruosa.

27
Mai20

...

[168].

Zap do Professor: Um homem que viveu na sombra da loucura por 41 anos pelo amor da sua Diotima tinha matéria poética de sobra para ser admirado por outro solitário, Hegel.

 

Meu zap: Sabe, eu tenho um conto publicado em que o Poeta alemão perambulava por Trás-os-Montes.

Zap do Professor: Tem alguma credibilidade. Pois não se sabe ao certo por onde vagueou... É possível, é possível. E quando Hegel ouviu os desabafos do seu amigo regressado daquela terrível viagem, e já na loucura, teve receios que ele também sucumbisse à loucura. Não era para menos. O filósofo lera do seu amigo solitário: “para mim, o meu século é um flagelo”.

 

Meu zap: E parece que o flagelo continua no nosso século. Somos sempre dominados pela mediocridade humana ao qual nos impinge as falhas seculares.

27
Mai20

...

[167].

Zap do Gaspar: De tanto pensar que não conseguirei dizer tudo angustia-me que agora a quarentena não deixe.

Meu zap: Não ponhas a Escrita à frente do Livro, Gaspar. Escreve uma frase de cada vez, de boa cepa literária e esperar que dê bons bagos, mesmo que poucos. Não esperes que dali venham milhentos cachos!  Depois àqueles bagos, recolhe-los, pisá-los, espreme-los e finalmente encuba-los e esperar.

Zap do Gaspar: Esperar o quê, ó filósofo de pacotilha?

Meu zap: Esperar que o mosto fermente bem e o seu néctar possa embriagar os deuses.

23
Mai20

...

[166].

Zap do Gaspar: Queria escrever o grande romance.  O grande romance português do século vinte e um! Ou pelo menos, da década! Já me contentava que fosse da década. À moda dos norte-americanos! Por isso tive essa recaída e... E sem romance à vista. Só uns breves começos de várias situações. Umas flatulências saídas do ânus da teoria do grande romance.

Meu zap: Também eu queria escrever um!... Mas como? Onde está o talento e a vontade? Teremos que recorrer ao Diabo? Vendermos o nosso princípio vital por três vinténs, digamos, em troca do talento ou vontade ou ambos? ... A certeza é que, sem o Diabo, cada um nasce para o que dá! Mas o Diabo está sempre numa esquina à espreita.

Zap do Gaspar: Não, não me sujeito a tanto! Neste momento estou a mergulhar num tema grandioso, bom, parece ser grandioso, já avancei umas páginas, mas o começo não está bom. Parece que, mais uma vez, tentei lavrar em grande latifúndio com charrua do burro do meu avó materno!

Meu zap: Tem calma... E esses inícios são do caraças! Eu sempre me deparo com essa angústia: Como se supera os inícios de Garcia Marques, ou de Dostoiévski com o seu Raskólnikov, por exemplo, logo no início com o clímax do crime! Empunhando a machada e golpear a velha agiota? E manter as centenas de páginas seguintes de rasgos de génio?

Zap do Gaspar: Verdade, Luís... Bom, vou deixar-te no teu blogue. Pelo menos tu lavras certinho no teu canteiro à beira das jaqueiras.

22
Mai20

...

[165].

Zap do desiludido ex-pentecostalista: [...] e o que constatamos é que passamos do sistema sombrio das Religiões-dominantes para a ética das Luzes ao nível das formalidades práticas. Tão só! E isso se mantém até hoje! E acobardamo-nos por comodismo ou por receio divino de questionar o miolo da questão-fulcral: a crença na invencionice tornada tão verdade por imposição de profetas-chico-espertos em que eles próprios, por sua vez, acabaram por acreditar no que inventaram, crença essa na verdade baseada no Medo e em nome de um deus qualquer, ao calhas, de todas as arrogâncias e vinganças que nada têm que ver com o Importante-e-a-Natureza.

O meu zap: Essa ideia do Medo para nos juntarmos e vivermos juntos é interessante. Posso publicar no meu “Jardim das jacas”?

Zap do ex-pentecostalista: Podes, podes... Em resumo, o fatalismo é nunca sermos capazes de enfrentar a verdadeira outra questão: Deus!

 

22
Mai20

...

[164].

Depois da aula de Metalogénese de Portugal no Departamento de Engenharia de Minas, na FEUP, nós os dois descíamos a Rua dos Bragas para irmos beber umas cervejas no café Célia, umas duas ruas depois. Este ritual era sempre as quintas, e lá pelas 16 horas descíamos então a Rua da Faculdade de Engenharia. Como estávamos quase no fim do mês, a minha mesada tinha se espumado. Como sempre! E em seguida, lá tinha que lhe pedir emprestado. E ele emprestava, aliás, como sempre emprestava, nos outros meses. E pagou as três cervejas que bebi. Ele, claro, bebeu bem mais. Quem tem cacau, tem e pronto! E ainda debatíamos um pouco da aula que acabáramos de ter.

- Percebeste alguma coisa sobre esses nomes pomposos como litoestratigráfica, cronoestratigráfica, paleogeográfica do Quaternário? –perguntei-lhe.

- Percebi, pois!

- E tens os apontamentos? – inquiri, já com a minha fisgada pronta.

- Sim!... Já sei, já sei. Não tiraste os apontamentos, já percebi Silvano. Depois tiras cópias dos meus apontamentos... Olha aquela, é de civil. Linda como uma galeria de Mina bem iluminada!

- Silvino!... O meu nome é Silvino!

- Sei... Passa o ‘jota ene’ que está aí na mesa ao lado.

E era isso! Sempre se enganava no meu nome. Vez ou outra falávamos de gajas como se percebêssemos algum caralho, embora ele fosse também Poeta de sonetos e quadras!  Sem namoradas, tirávamos tratados filosóficos sobre a mulherada e assim passávamos o tempo.

- Aquela de português-francês que está ali ao fundo, perto do balcão, ainda a vou comer – gabava-me, embora percebesse o quanto era infeliz na minha misoginia, e a engazopar o tempo.

- Estou para ver! Ainda que fosses cavalheiro no trato da língua, mesmo assim duvidaria! Ela é boa demais para ti! Mas vai lá pedir-lhe o número de telefone.

-Hoje não! Até porque ando teso, como sabes! Sem dinheiro sinto-me despido...

- Desculpas, Silvano! Desculpas... Só tens que ir lá, ao pé dela e...

- Silvino, pá! Silvino!

- Não desvies a conversa... Por acaso até tenho o número dela. É a Lurdes. Nem consigo imaginar Lurdes-Silvano... Hehehe...

- Silvino! Ok?- ripostava, aselha e engolindo a vergonha e cheio de fome de namorar... Nem que fosse a mais feia da Faculdade!

Na verdade, a timidez impedia-me de tal façanha. E isso era recorrente semana após semana. Ele sempre se confundia com o meu nome, esse meu amigo do dinheirame, e os dois sempre a namorar em sonhos eróticos. Ora, isso sempre me trouxe vantagens! Tirando que de gajas nem velas, eu tinha vantagens! A cada mês, lá lhe pagava o que podia, mas voltava a pedir-lhe para garantir a última semana do mês de paparoca da cantina de engenharia e uma ou duas cervejitas às minhas custas. Começado o mês novo, o velho depositava na minha conta, transformando os primeiros dias mais floridos entre colegas faltosos das aulas teóricas. E lá pelos últimos dias, o meu saldo era sempre negativo, e a aumentar a cada mês a dívida para com ele, o meu amigo do dinheirame. Um dia, já ele tinha passado à cadeira de Metalogénese de Portugal, e eu a focinhar naquelas litoestratigrafias do Quaternário em Portugal por uns anos, que, numa mesa cheia lá no Célia, um destes génios com notas máximas a tudo discutia o que era a Arte. E o meu amigo do dinheirame replicava que qualquer sociedade que se prezasse tinha tendência para ver o Cinema como função social. E o génio das notas altas insistia:

- Não, não concordo! É mais profundo! É o cinema em si, sem querer explicar nem solucionar! E a Arte em geral!

E eu finalmente acabava, invariavelmente, a meter o bedelho, até porque queria afastar esse drama da cabeça de não ter dinheiro para as cervejas que já tinha bebido, e arregimentar um motivo para não pagar o que não poderia pagar no momento acalorado. Então, disparava seco e sem paixão:

- Eu li num livro de Huisman que a sociedade da Arte está para ser feita. – Atirei enquanto emborcava a cerveja, incomodado com a bexiga apertada. E o génio das notas máximas a saudar o meu ponto de vista. E vai o meu amigo do dinheirame:

- Olha, este esperto do Silvano é que a sabe!

- Silvino! Silvino, caralho! – Levantei-me, fazendo um teatro valente, barafustando, dando ares de bêbado para arrematar, e fui-me! Soube mais tarde que o meu amigo pagou a minha despesa e nunca mais o quis ver. E passei a frequentar mais o Ceuta, outro café belíssimo. Quando o dinheiro dava, claro.  Quando não dava, lá me agarrava às fotocópias das sebentas dos outros e lá fazia umas cadeiritas paulatinamente. A foda foi no último ano. Fazer as matemáticas todas atrasadas! Foi foda, mas lá consegui! Um verdadeiro Silvino, sempre Silvino!... Esse meu amigo do dinheirame nunca mais o vi. Já formado, fez-se à vida e perdi-lhe o rasto! E hoje, estou aqui a pensar enquanto escrevo o quanto desejaria de lhe agradecer por tudo! E poder-lhe pagar o que lhe devo! E por fim, imagino-o um grande Engenheiro de Minas em algum lugar do mundo, a comandar um grupo de mineiros duros, qual toupeiras orgulhosas, abrindo galerias, poços, gaiolas, escorando os túneis, extraindo o minério e por ai vai... E que gostaria de lhe dizer, agora, que pode chamar-me Silvano! Que agora já não me importo!

22
Mai20

...

[163].

Meu zap: Olá Gaspar! Como vai o teu romance?

Zap do Gaspar: Estava para te zapar... Olha, diz do teu saber desta tirada que se segue do meu Conde: “uma das premissas que poderíeis adiantar era - se ousar quiserdes - romper com o círculo do agasalho! Despir a doçura do amparo que a ditadura da etiqueta reina. Mostrardes como sois em pelota e lançardes o  agasalho para a garupa da alcova como se estorvo fosse.... Isso mesmo, mostrardes ao mundo como é o que deveria ser que é ser como se é! Fazer o movimento crucial para fora, para ao fim e ao cabo, existir. Como eu!”

Meu zap: Que o teu Conde manda bem, meu querido Gaspar!

21
Mai20

...

[162].
A melancolia materna consequente da imaginação criadora descrita neste fragmento diz que um beijo do neto nas bochechas da avó é fruto de um esforço libertador de imaginação:
- Vai, vai, Pedrito... O autocarro está a chegar. E come a pêra toda, hein!
E observar o autocarro chegar. As portas abrindo e chiando e o neto entrando com a mochila às costas desengonçando... Descendo novamente, correndo ao encontro da avó, cruzar os braços envolvendo-a e os olhos da velha humedecerem e sussurrar:
– Vai, vai. E tem cuidado, filho...
E vê-lo de volta com aqueles passos párvulos e saltitantes e avisar já com saudades:
- Abranda o passo!...isso! A avó gosta muito de ti!.. E come a pêra toda!

21
Mai20

...

[161].

Agora que faleceu - segundo a família - sucumbindo a uma leucemia, é que vou falar dele. Bom, na altura ele era um ganapo arreguila que só ele. Mas um ganapo que tinha a minha estima. Na rua ele era o mais inteligente de nós todos! O mais capaz! Eu o imaginava um homem de grandes feitos de amanhã! Eu devia ter uns três anos a mais que ele. Mais novo, ainda assim uma referência para todos nós que brincávamos às escondidas pelas ruas do bairro e ele sempre liderando. Mas o problema dele fora sempre o pai! Uma lástima de pai! E como tinha boas notas (aliás, ele ajudava o grupo nos trabalhos de casa) tudo levava a crer que teria o apoio dos pais para singrar nos estudos. Principalmente nas redações ele era um génio! Dizia que devorava os contos de um tal de Torga!  E tinha uma caligrafia feia, mas escrevia as frases perfeitas! E nós copiávamos do caderno dele os trabalhos de casa. E claro, no fim das contas nós todos levávamos negativas, uma vez que as redações, contas de somar e dividir, tabuadas e etc., eram cópias autenticas umas das outras. Até os raros erros das contas eram iguais (a matemática não era o seu forte). E ele como não dava com os dentes na língua, também levava pela mesma tabela, prejudicando a sua média para realizar o seu sonho de entrar numa universidade, embora o professor soubesse quem fora o autor dos trabalhos de casa.

- Quero ser professor de português – Dizia ele para nós, enquanto estávamos na galhofa a leste dos seus sonhos.

Mas o pai já tinha o seu futuro traçado: iria, quando fosse adulto, para a França com ele. Assentar tijolo! Fariam uma sociedade de pai e filho, e assentariam tijolos franceses para o povo francês! O pai dele era dos que achavam que tudo o que era francês era bom, e tudo o que era feito em Portugal não prestava para nada. 

-   Non, c'est pas comme ça – Insistia ele, quando não alinhavam com ele nessa depreciação de Portugal – Portugal é a nossa desgraça. França é que é, hommm!

- Pai, não vou consigo para a França. Fico aqui com a mãe. Quero estudar e ser professor.

A mãe, essa, era uma santa muda! Desde que o filho nascera só via o marido nos vales de lençóis no mês de agosto. O resto do ano, sempre em casa a amargurar os dias solitários. Abandonava a gilete e deixava crescer os pelos das pernas e só uma semana antes de agosto rapava tudo...

- Isto não é para ti, filho! Estudar ainda te deixa mais mole! Deixa-te disso! Eu é que sei! Vais comigo!

E assim foi. Anos mais tarde - fui sabendo - casara, tivera dois filhos franciús e depois... E depois a doença! Um fim triste, na verdade! Nunca respondeu às minhas cartas! Não regressou jamais à aldeia. Mesmo no enterro da mãe, se recusara a vê-la. O pai, esse, nada se sabe até ao presente... E lembro-me bem a última vez que vira o pai ao lado do filho cabisbaixo, antes de apanharem o autocarro que os levaria para França e ele, o pai, a justificar-se lá na praça rodeado de familiares, amigos e da triste mulher, enfim, para quem quisesse ouvir:

- Sim, o meu filho vai comigo! Lá é que é! E depois, assentar tijolos é isso mesmo: colocar um tijolo em cima do outro e manter o prumo da parede! La France est belle!  Em França é que é, hommm!

18
Mai20

...

[159].

- Eu, se fosse eu, era de beber só destilação de mosto fermentado do caldo de cana-de açúcar.

- Tu e os teus floreados! Diz logo cachaça! Aposta na literatura de soco! Tu, se fosses tu, deverias ler Iceberg Slim!... Deixa prá lá, mas eu tenho aqui uma garrafa da boa!

- Então, manda!.. Foi envelhecida numa amburana?

- Que nada! Num carvalho europeu! É cá uma pinga!

- Pinga? Mas não quero vinho...

- Não é vinho, homem! Lá em Portugal não sei. Mas aqui, pinga é de boa cachaça!

- Ah, bom... Então, vamos lá à pinga da boa!

18
Mai20

...

[158].

Zap do filósofo: Quando a um tempo se dizia: Acordar de manhã cedo e largar as ferramentas inúteis e pesquisar as dúvidas, tornando o pensável em momento activo até que, finalmente, já a manhã laboral, pegar nas ferramentas úteis e ter a garantia de um dia ganho, mas que no fim do dia um brando desgosto dominava com um cansaço permanente.

Meu zap: Agora, na quarentena é mais pesquisar as dúvidas no seio da sociedade trancada.

Zap do filósofo: Pesquisa que não vai dar em nada. A sociedade está a pensar, presumo eu, com bojo de intenção se for realmente o caso, mas que será enfunada de preguiça no desconfinamento.

Meu zap: Tu entendes de podar bem o pessimismo com as tuas ferramentas úteis.

17
Mai20

...

[157].

O texto já nasceu perdido com a discussão fora de controlo. E ele prosseguia com cafajeste para aqui, eu rebatia com filho da puta para ali, até que a dona dos gansos reiterou para o lado dele.

- É uma pena, rapazes! E deixem de ser crianças! É só uma pena de ganso, e tu deixa o Luís escrever as insanidades dele! É um desgraçado! Nem sabe escrever!

- Pois é! Nem merece que lhe chame cafajeste – Firmou o filho da puta com os dentes cerrados.

- Tu é que nem merecias estar neste texto. – Teimava eu, em meio tom, perdendo o controlo da situação. A ‘pena’ que queria guiar-me era a infelicidade de termos perdido um raro exemplar de um livro...

- Esta pena é de ganso! Pena das aves! Eu crio gansos, ó tolo - E ela mostrou-ma na cara - Não é isto que estão a discutir os dois?... E mete nesta tua cabecinha de filho de Fornos do Pinhal que vais a todo o vapor ver que são penas de ganso!

- Sim... Não. Quer dizer... É só que é uma pena o livro de Camões ter sido queimado lá no Museu – Dissimulei, fugindo em frente.

- És um fingido! – O filho da puta abeirou-se de mim e atestou-me uma cacetada nas ventas que até vi penas de ganso à roda, e ainda me humilhou mais – E depois, essa da queima dos Lusíadas é Fake!

- Então é uma pena - Contravi, lutando com as dores nas faces e tentando livrar-me desta embrulhada de penas de ganso sem pés e cabeça.

- Então aceitas que são penas de ganso?

- Não! Que é uma pena tudo isto, e é uma pena a perda do exemplar do zarolho... E que era escusado esse tabefe dado pelo filho da puta... Mais uma tentativa em vão para deixar um legado meu...

 

16
Mai20

...

[156].
Como havia lido muito tempo atrás um conto em que apreciara sobremaneira a palavra deprecar (Deprecar! Lá fui ao dicionário. E ao tempo era um desses ‘tijolos’ de capa dura vermelha), eu nunca a esquecera desde então... Até que ontem à noite voltei a relembrar: Deprecar... Mas agora tinha esquecido o significado (não é bem assim: só ficado dúbio o seu sentido). Regressei ao dicionário, mas agora o da net, de seu nome PRIBERAM (para já, o que me inspira mais confiança, sem bem saber o por quê. Meteu-se-me na guedelha que sim, que é o mais confiante e assim tem sido). Bem, a palavra deprecar ficara-me de facto desde então na membrana mais profunda do globo da minha testeira formatando a imagem que tinha da palavra deprecar, mesmo nas geratrizes da persignação que foi ficando no caminho. E até hoje assim a tenho, a imagem da palavra deprecar. E esqueci redondamente o conto. Vá, redondamente não, mas de quadratura de esquecimento face ao conto... Mas como se tratava de um conto extraordinário quando o li e extravasava das molduras do tempo e do significado, lembro então vagamente que era sobre as deambulações de um arqueólogo façanhudo à procura de lugares para escavar onde outrora o Homem ocupara-os durante milhares de anos. Para investigações de mudanças concretas dos Homens e da Civilização ao longo do tempo. E numa cena secundária do dito conto o arqueólogo suplicava em frente ao dono das terras:
- Compreenda o que está em causa, senhor! Aqui estão os testemunhos da nossa jornada e...
- Isso de deprecar não serve para mim! – Reagira o dono do terreno.
- Sim entendo. Bom, vamos conversar... Quanto acha que vale o seu terreno?

14
Mai20

...

[155].

Zap de um velho amigo de Fornos do Pinhal: Deixa-te de ser cínico! Relaxa e come um presunto do bom do reco do Ti António regado a um copo de boa cepa e cerca-te do ilusionismo dos familiares e amigos que merecerem a tua magia.

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