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blogue do jardim das jacas - luís altério

- Eu é mais d'eus -

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blogue do jardim das jacas - luís altério

02
Jul20

...

[214].

A Roda dos Expostos ainda vive. O meu pai dizia (e dos meus avós paternos também lhes ouvia) para jamais esquecer que somos descendentes da mãe saída da Roda dos Expostos. Que um dia essa mãe fora posta na Roda que ocupava uma espécie de janela dando para a rua e que girasse num eixo perpendicular, dali fosse posta aos cuidados das amas da instituição... E é então que leio uma passagem do diário de um inglês que passara pelo Brasil, que dá bem conta de como funcionava essa Roda com o viés da deturpação genuinamente de mente ocidental, transcrevo tal e qual: “... É dividida em quatro sectores por compartimentos triangulares, um dos quais abre sempre para o lado de fora, convidando assim a que se aproxime toda mãe que tem tão pouco coração que é capaz de separar-se de seu filho recém-nascido. Para tanto tem apenas de depositar a criança na caixa e, por uma volta da roda, faze-lo passar para dentro, seguindo, depois, seu caminho, sem ser vista.” E de repente, vieram-me as lágrimas... Primeiro, pela visão deturpadora de um ocidental sobre essas mães que abandonavam os filhos, como se as mães fossem más, que tivessem “tão pouco coração”, como se não fossem vítimas da sua própria classe dominante e escravocrata; e depois recordando mais uma vez, aquela minha mãe distante que se sujeitara à desumanização dessas instituições (sabe-se hoje) que só um terço dos enjeitados - como se dizia - sobreviviam. Ela tanto sobrevivera, como saíra da Roda dos Expostos e ainda tivera 4 filhos saudáveis e que os criara para se espalharem pela Bahia. Um deles, casara e se instalara em Vitória da Conquista. Dos seus 8 filhos, um deles se casara, por sua vez, e dera 6 filhos ao mundo, dois rapazes e quatro meninas. Uma delas, se casara com um lojista da cidade e finalmente nascera o meu pai. E agora aqui estou eu a dar continuidade. O nome dessa minha mãe distante, pergunta? Carolina! A nossa Carolina, a mãe jamais esquecida. Mas agora, o que me atormenta é o que levara a mãe de Carolina a deposita-la na Roda? Você consegue imaginar? O sofrimento daquela mãe? Afinal, aquela minha mãe mais distante mãe da minha mãe Carolina? Qual seria o seu nome? O que teria acontecido? ... Não, não temos fotos de Carolina. Infelizmente não temos. Sabe, isso atormenta-me, esse e outros sofrimentos apagados pela História ou destruídos pelos Brancos com o seu viés ocidental... Isso, tem razão: gente que a História não reza. Agora que vemos esse Golpe da Elite Branca a dominar a nossa sociedade, me pergunto: Quando nos libertaremos deste fatalismo da História escrita só pelos Brancos?

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